A xícara - até onde você está disposto a mudar?


Na infância eu gostava muito de fazer bolos de chocolate.

Minha mãe ganhou uma receita na qual estava escrito que os ingredientes eram medidos em xícaras. Como possuíamos alguns jogos desse item na cozinha, ela escolheu um dos modelos para utilizar em suas receitas.

O tempo foi passando, muitos bolos de chocolate foram feitos e as xícaras de louça foram sendo quebradas.

Em uma casa com três crianças pequenas, não demorou tanto tempo para que as seis xícaras fossem reduzidas a quatro.

Depois a três. E finalmente a duas.

Conforme a quantidade de xícaras diminuía, minha preocupação aumentava. Quando restaram as duas últimas, ninguém mais podia utilizá-las, pois eu não deixava.

quatro-xicaras

Raciocínio de criança

Eu pensava assim:

"Se essas xícaras quebrarem também, como vou poder fazer bolo de chocolate? Sem elas não há como medir os ingredientes. Quando elas não mais existirem não vou poder mais fazer bolo de chocolate! Nunca mais!"


A descoberta

Em uma viagem para a casa de uma tia, minha prima 5 anos mais velha do que eu, também gostava muito de fazer bolos. Com ela aprendi a minha segunda receita: bolo mesclado!

E algo muito mais importante. Foi surpreendente ver minha prima utilizando copos comuns para medir os ingredientes. Naquele momento eu percebi que poderia usar qualquer copo ou xícara em minhas receitas. Que alívio!

No momento da descoberta, um dos meus primeiros pensamentos foi: "por que eu não pensei nisso antes?"

Quando voltei para casa, não demorei a testar a novidade com outra xícara. E depois testei com copos. Os 200 ml da xícara logo se transformaram nos 250 ml dos copos, ou seja, bolos mais altos! Para compensar a maior quantidade de massa, eu colocava um pouco mais de fermento em pó. E a maior parte dos bolos deu certo.


E as xícaras especiais?

Com minha nova descoberta, as duas xícaras de louça foram novamente "liberadas para uso".

Não lembro mais quanto tempo duraram, mas como não eram mais essenciais para minhas receitas, não havia motivo para tanto cuidado, para tanto zelo.

Essas xícaras fizeram parte do meu passado, fizeram muito sentido em minha vida algum dia, mas a partir daquele momento, eram apenas xícaras como todas as outras.

A inocência e a imaginação do mundo infantil são surpreendentes e incríveis, não são? É bem provável que você tenha uma história parecida com algum utensílio doméstico ou com algum brinquedo.


Onde eu quero chegar com tudo isso?

Muitas vezes confundimos supérfluo com importante e importante com essencial. E no meio dessa confusão toda, não é raro que nossos pensamentos fiquem nublados e confusos, a ponto de não conseguirmos distinguir o que faz e o que não faz mais sentido para nós.

Não queremos mudar. Gostamos das coisas do jeito que estão. Somando-se a isso uma certa dose de apego, corremos o risco de permanência por tempo indefinido na chamada zona de conforto, que muitas vezes está mais para zona de desconforto.


Muitas vezes parece até que não queremos crescer...

Imagine se na minha infância eu houvesse insistido em continuar apenas com aquelas duas xícaras, mesmo após ver minha prima utilizando copos para medir os ingredientes de suas receitas.

Parece loucura?

É exatamente dessa forma que agimos muitas vezes, nos fechando para o novo por preferirmos o que já conhecemos.

Isso é ruim? Não inteiramente.

Há coisas que é melhor nem conhecermos mesmo, pois são prejudiciais à saúde física, mental e/ou espiritual. Há também coisas que não acrescentam nada, que muitas vezes só levarão uma parte de nosso precioso e finito tempo embora.

Ao mesmo tempo, há também muitas coisas boas, importantes e até essenciais ao nosso próprio desenvolvimento pessoal, que são ignoradas ou negligenciadas por estarmos conectados demais a hábitos e ideais que já fizeram muito sentido para nós algum dia, mas que hoje sabemos ou sentimos que não fazem mais.


Negando o óbvio

O desconhecido é desconfortável. Pelo menos no início. E para nos protegermos do medo e do desconforto, muitas vezes negamos o óbvio, ignoramos os fatos, a intuição e a consciência.

Agindo assim, continuaremos no mesmo lugar onde nos encontramos, ou melhor, desceremos alguns degraus, pois como diz o ditado, quem estaciona não permanece no mesmo lugar, mas regride.


abacateiro

Imagine uma árvore. Vamos usar um abacateiro como exemplo. Agora imagine que esse abacateiro recuse-se a crescer, querendo chegar a altura de apenas de 1 metro em vez de 20 metros - a altura máxima esperada para essa árvore. 

O que acontecerá?

Raízes menores, tronco menor, folhas menores e frutos menores. Frutos bem menores. Dessa forma a árvore alcançará todo o seu potencial produtivo?

Certamente não.

Como você se sentiria ao ter consciência de que usou muito pouco do seu potencial? Será que não é por esse motivo que vemos com tanta frequência olhares vagos, tristes e sem ânimo? E muitas vezes até sem esperança?


Conclusão

Mudar não é - e nunca será fácil. Mas precisamos ter sabedoria e disposição para identificar o que é interessante reter e o que é melhor deixarmos ir embora de nossas vidas.

Precisamos abrir espaço em nossa casa, em nossa mente e em nossos hábitos para o novo.

Não somos museus! Não podemos deixar que fatos e objetos do passado nos impeçam de conhecer novos caminhos que poderão nos presentear com belos e surpreendentes horizontes.

Como disse Albert Einstein, "uma mente que se expande nunca voltará ao seu tamanho original".

Ainda bem que na infância eu não insisti em utilizar as mesmas xícaras tão familiares. É assim que procuro agir na vida - às vezes com sucesso, às vezes não. Mas acertos e erros fazem mesmo parte do processo.


Créditos das imagens: Pixabay

Comentários

  1. Muito bom! Não podemos ficar padronizadas nem nos atos, nem ideias! Adorei a leitura e a certeira conclusão! bjs, chica

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  2. Olá Rosana,
    que história linda da sua infância!!
    Lembranças assim devem realmente serem guardadas com cuidado.
    Como se fosse um cristal, um tesouro, para não correr o risco de quebrar.

    Mudar dá trabalho, muitas vezes dói, é difícil mas necessário.
    Mesmo quando parece impossível, é possível mudar.
    Pouco a pouco, um passo de cada vez...

    Como sempre, arrasando em seus posts.
    Beijo:)

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    1. Edna,

      Gostei do que disse sobre tesouros. Penso que são momentos como esses da infância que dão um colorido à vida.

      A mudança quase sempre é desconfortável, mas sem ela, estaríamos muito atrasados enquanto pessoas e sociedade, pois mudanças sempre são ricas em aprendizado desde que a pessoa esteja disposta a aprender.

      Boa semana!

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  3. Oi Rosana!

    Achei muito legal o exemplo da xícara. Mostra bem como a evolução humana faz com que nos cerquemos de pequenas seguranças que estão a nosso alcance. Queremos o que já conhecemos, o que está mais fácil, o que já foi testado, mesmo que essas alternativas não sejam as melhores.

    Em nosso crescimento, temos a opção de continuar pensando dessa forma ou se libertar desse modelo mental limitado que fará, como você comentou, que não alcancemos nosso verdadeiro potencial.

    Ótimo texto! Abraço!

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    1. André,

      Muitas vezes é o conforto proporcionado pelas pequenas seguranças que prejudicam nosso desenvolvimento. A questão é saber o momento mais adequado para que a mudança seja efetuada, pois se isso não ocorrer, podemos perder o tempo em que as coisas ocorreriam de forma mais natural e começam a ficar mais complicadas e difíceis.

      Bom saber que gostou do meu post. :)

      Boa semana!

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  4. Boa noite de paz, querida amiga Rosane!
    Na verdade, mudamos querendo ou não, pois a vida nos modela sempre. Ainda bem que seja assim!
    Gostei de todo post. Muito sugestivo a partir de uma receita, uma xícara, uma lembrança afetuosa, um novo modo de se fazer e de ser sempre acontece.
    Sejamos abertos ao novo!
    Beleza de postagem!
    Tenha uma noite serena e feliz !
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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    1. Roselia,

      "A vida nos modela sempre".
      Gostei dessa frase. Por isso precisamos de muita atenção para aprender de forma sábia a passar por momentos de mudanças sem alonga por muito mais tempo as etapas que estão pedindo para serem encerradas.

      "Sejamos abertos ao novo."
      Você disse tudo.
      Não sei se você viu o post Transtorno de Acumulação - Simplicidade e Harmonia. Mostra uma parte cruel do que pessoas fechadas ao novo vivem. O mais triste é que acreditam que isso é normal.

      Boa semana!

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    2. Vou lá ver, querida. Obrigada. Bjm

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  5. "Temos emoções mistas, em que ligamos tanto a dor quanto o prazer à mudança, o que deixa o cérebro indeciso sobre o que fazer e nos impede de utilizar os plenos recursos de que dispomos para promover o tipo de mudanças que poderiam literalmente ocorrer de um momento para outro, se cada fibra de nosso ser estivesse empenhada." Desperte seu gigante interior (Robbins, Tony)

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  6. E numa época em que o ter... parece ser o que faz o mundo girar... este texto é uma verdadeira lufada de ar fresco!...
    Destralhar... também tem sido palavra de ordem, aqui em casa... senão... tornamo-nos escravos de tantos objectos, que só nos pesam...
    Adorei o texto! Beijinho! Continuação de uma feliz semana!
    Ana

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    1. Ana,

      Destralhar é muito importante mesmo, senão acabamos nos perdendo em meio a tantos objetivos desnecessários, que muito nos atrapalham a encontrar nosso próprio caminho.

      Bom saber que gostou do meu post. :)

      Um bom final de semana!

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  7. Excelente artigo, Rosana!

    Explorar novas possibilidades, ir além de nossos hábitos antigos, são realmente atitudes que podem provocar uma evolução positiva em nossas vidas.

    Abraços!

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    1. Guilherme,

      Sem explorar novas possibilidades e novos caminhos, o crescimento será mínimo. Muitas vezes, pequenas mudanças diárias são muito importantes nesse sentido.

      Um bom final de semana!

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  8. Muito boa a postagem com certo saudosismo, que bem temos da idade feliz onde muitos estereótipos se solidificam e nos acompanham pela vida. Há em nós o medo do novo como perder o conforto e assim muitas vezes as mentes se bitolam e deixam de criar, o pronto é mais confortável. Seu texto me lembra uma musica do Raul Seixas, o Ouro de Tolo, onde ele se inquietava com o conforto e achava tudo muito chato, até morar num apartamento de frente para o mar. Tudo certinho para ele, era como se vivesse a esperar a morte chegar. E num momento ele se desespera em constatar, que somos um grande idiota, que só usamos 10% da nossa cabeça.
    Valeu o texto e a reflexão.
    Meu abraço.

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    1. Toninho,

      "O pronto é mais confortável".
      Você tem toda razão. E quanto mais nos acomodamos nessa situação, menos ânimo teremos para mudar.

      A humanidade de forma geral usa pouco mesmo da capacidade cerebral para o bem - exceto algumas pessoas aqui ou ali. A maioria acaba sendo espectador e não ator na própria vida. Triste, não é?

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