Triunfo no importante, fracasso no essencial


Ao longo de sua existência, a humanidade tem se superado de maneira positiva em muitos aspectos, como na área de tecnologia, mas infelizmente o que deveria estar em primeiro lugar parece estar no final da lista de prioridades humanas. Me refiro as virtudes e valores que todos conhecemos – ou pelo menos temos ideia do que significam.

Respeito
Decência
Cidadania
Responsabilidade
Educação

Com frequência o que vemos é o descaso com as virtudes e a anomalia de uma estranha e crescente degeneração. A decadência, que no passado era sutil, hoje é intensamente visível.


lupa-e-balanca-de-etica

O contraste

O contraste humano chega a ser surreal. Enquanto os avanços na ciência e na tecnologia são notáveis – e muitos deles realmente importantes e úteis, o fracasso moral e espiritual alcança proporções cada vez maiores e até inimagináveis. Assim como a maior parte da população de 1920 classificaria como delírio a existência futura do telefone e da internet, acredito que também duvidariam de uma época na qual a indecência, a futilidade, a decadência moral e a erotização chegariam aos níveis que vemos hoje. Em relação à ganância e ao egoísmo, acredito que não se surpreenderiam, pois em todas as épocas esses defeitos de caráter estiveram presentes na história da humanidade, de acordo com o conhecimento, a possibilidades e ferramentas disponíveis em cada época.

O problema é que a natureza pecaminosa tem dominado muito mais pessoas do que o máximo suportável para que houvesse o mínimo necessário ao equilíbrio do planeta. O ditado "uma laranja podre estraga todas as laranjas da cesta" resume bem a questão, pois querendo ou não, de forma consciente ou não, todos influenciamos e somos influenciados a maior parte do tempo.


O eu em primeiro lugar

No Brasil isso é muito evidente, começando por aqueles que deveriam gerir da melhor forma possível os recursos públicos e não desviá-los ou utilizá-los de forma descuidada.

Enquanto as palavras ensinam, o exemplo arrasta - o negativo "jeitinho brasileiro" está aí para comprovar, pois contaminou todas a classes sociais, sem exceção.

O culto ao ter, ignorando o ser, demonstra o quanto estamos cada vez mais nos distanciando de nossa essência. De forma curiosa e até paradoxal, enquanto há o distanciamento do essencial, há a priorização do "eu" através da satisfação de desejos e de necessidades desnecessárias.

O "eu" em primeiro lugar também está muito presente na falta de cidadania, educação e responsabilidade. Talvez essa seja a mais grave forma de priorizar o "eu", pois todos sabemos - ou pelo menos temos ideia de - qual é o comportamento adequado para a harmônica convivência em sociedade.

Aprendemos desde cedo a não mentir, a sermos educados, a não destruir a natureza, a respeitar o próximo. Mas o que vemos todos os dias é exatamente o contrário, salvo exceções, que como eu disse anteriormente, são insuficientes para manter um equilíbrio minimamente funcional no planeta.


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Sem o equilíbrio necessário, o que vemos?

- Poluição generalizada - atmosférica, sonora, visual, do solo, da água - devido ao excesso de "necessidades" desnecessárias, à ânsia por possuir cada vez mais e à explosão demográfica. Recordo que o psiquiatra Flávio Gikovate disse uma vez em seu programa na Rádio CBN que o versículo bíblico "crescei e multiplicai-vos" não está mais em vigor, pois a Terra já está cheia. Atualmente somos mais de 7 bilhões de pessoas - número catastrófico para a regeneração das áreas exploradas ou degradadas por nós mesmos, humanos.

- Crescente falta de paciência, cordialidade e de educação no trânsito.

- Aumento da violência, que alcançou patamares endêmicos em muitas regiões.

- Músicas com alto volume a qualquer hora do dia ou da noite, perturbando o sossego alheio, que é teoricamente garantido por lei, mas que na prática tornou-se apenas mais um artigo decorativo de uma lei que provavelmente nunca será cumprida.

- Exploração dos recursos naturais de forma ilegal devido a ganância cada vez mais intensa.

- Lucros cada vez maiores da indústria – e consequentemente do sistema governamental – devido à explosão demográfica. A consequência não poderia ser outra além do aumento da poluição de todos os tipos, formando um círculo vicioso de decadência e incredulidade de que um dia a humanidade alternará sua rota rumo ao fundo do poço para o qual está caminhando a passos largos.


O resultado

Vivemos em uma sociedade cada vez mais doente, que está adoecendo cada vez mais também o mundo em que vive.

Lembro ter lido que até aproximadamente o ano de 2010 era previsto que as doenças mais incapacitantes seriam as cardiovasculares e o câncer. Dados atuais mostram que a depressão superou as duas, passando do terceiro para o primeiro lugar na previsão.

Além disso, houve um aumento significativo em casos de ansiedade, síndrome do pânico, gastrite, diabetes, hipotireoidismo, enfim, de muitas doenças relacionadas ao estresse, aos excessos, à alimentação altamente processada, às pressões e à vida em desarmonia e em desequilíbrio da modernidade.


Conclusão

Há algo de muito errado com a humanidade.

Se os triunfos da tecnologia e da ciência vieram para facilitar e melhorar a vida, por que o que vemos cada vez mais é o oposto?

De que adianta termos mais anos de existência, mas perversamente menos vida nesses longos anos?

Enquanto não houver um retorno, mesmo que parcial, aos valores morais e espirituais, seguiremos lentamente rumo a um destino ainda pior.


Encerro o post com dois trechos do vídeo Koyaanisqatsi – Life out of balance, de Philiph Glass, que foi lançado em 1983, ou seja há 35 anos, do qual eu já havia postado um trecho no início do blog.

Na época, escrevi:
"Repare nas fisionomias das pessoas que estão nas ruas e nos carros.
Semblantes felizes? Tristes?  
Vazios? Inexpressivos? 
Ansiosos? Calmos?
Indiferentes? Indecifráveis?

Eu fico pensando:
O que temos feito para que a situação apresentada no filme melhore? 
Ou piore?"

5 anos depois, a primeira pergunta que faço é a mesma: repare nas expressões faciais das pessoas no segundo vídeo. Não se parecem com o que vemos no dia a dia?

O que temos feito para que a situação apresentada no filme melhore? 
Ou piore?

Será que essa é a vida para a qual fomos criados?



Parte 1 - The Pulse (o momento que mais gosto neste vídeo é o que começa em 3:00)



Parte 2 - The Grand Illusion





Créditos das imagens: 
Stuart Miles e Witthaya Phonsawat - Free Digital Photos 

Referências:

ONU - Depressão afeta mais de 300 milhões de pessoas e é doença que mais incapacita pacientes, diz OMS
Estadão - Depressão é a doença mais incapacitante do mundo


Comentários

  1. Esse post está relacionado a muitos assuntos, exige uma análise ampla para digerirmos tudo.

    Você citou superpopulação, poluição, doenças emocionais/psicológicas e até a erotização.
    Pois bem: Históricamente falando vivemos numa das melhores, senão melhor época da humanidade.
    Desde a idade antiga, passando pela idade média até algumas décadas atrás o ser humano em sua grande maioria não tinha acesso a nada, não tinha direiros e a violência era rotineira, brutal e comum.
    Veja a história da humanidade, fo pautada em cima de guerras, dominações, escravidão etc.
    Na Europa por exemplo as vilas tinham muros e eram comuns invasões com matança ou escravização dos homens e estupros em relação as mulheres. Será se as pessoas dessas épocas eram felizes, ou estavam tão ocupadas e preocupadas com a sobrevivência que nem pensavam nisso?
    Sei que há guerras e conflitos hoje, mas isso de forma geral não é a regra na mesma proporçã que já foi, além do fato de que muita gente tem acesso a saneameno básico, educação, informações diversas etc.

    Assim como você creio que o crescimento demográfico exagerado contribui para desequilíbrios ecológicos e até mesmo para a desestruturação de regiões ou países. Além do aumento da demanda por alimentos, geração de energia, água, espaço etc. Esse é um ponto.

    Moral, espiritualidade, bons costumes etc; Esse é outro tema amplo. Se formos analisar, o Brasil a décadas atrás tinha indicadores sociais (analfabetismo, mortalidade infantil etc) vergonhosos, e pelo menos estatisticamente falando a papulação era muito mais religiosa praticante do que hoje. É pra se pensar...
    Sou católico quase não praticante, mas acho os ensinamentos bíblicos fantásticos, tem uma sabedoria profunda alí, mas acho que muitos encaram as religiões de maneira pouco prática e pouco se aplicando na vida cotidiana.
    Temos que pensar em que a nossa religião ou crença está contribuindo para que sejamos melhores. Se formos melhorando o resto será consequência, um efeito dominó.

    Erotização merece uma análise individualizada. Na minha opinião há hoje uma exploração exagerada do assunto, usando inicalmente e principalmente as mulheres e de um tempo pra cá os homens.
    São músicas, filmes, séries, novelas que recorrentemente apelam para o sexo como enredo, misturado com traições de todos os tipos.
    E isso que sempre existiu, mas de forma geral era mal visto, já não causa tanto embaraço.
    Desde que a erotização ganhou espaço o núero de dívórcios, mães solteiras etc, só aumentou, trazendo consequências aos envolvidos e até a sociedade.
    Não sou puritano, nem falso moralista, mas ter filhos não é uma brincadeira.
    Famílias desestruturadas geram traumas e dificuldades emocionais também, não é regra, mas não é raro.

    Continuarei outros temas em outro comentário.

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  2. Continuação...
    Doenças emociaonais: Cada pessoa tem uma história e um organismo, mas a alimentação pode contribuir pra isso segundo pesquisas, poluição idem.
    No caso dos homens há um fenômeno chamado estrogenização, vícios contribuem também.
    O uso do alcool está muito abusivo e quase ninguém diz nada.
    Hoje pra uma pessoa alcançar um nível médio financeiro de vida a exigência é grande, faculdade, pós, idiomas, experiência, cursos diversos, Q.I, perfil comportamental para as profissões etc. Isso gera ansiedade.
    Fora a pressão por resultados no trabalho.
    Pressão por resultados familares/social (casar e ter filhos) e ser feliz. As pessoas se cobram a ser e parecer felizes e realzadas, mesmo quando de fato não estão.
    Fora a mania de se comprar com os outros...

    Enfim a questão é complexa e vou para por aqui pra não escrever um livro.

    Resuo: Cada um deve fazer uma análise de se mesmo e tudo que o envolve, daí virá o amadurecimento e as idéias e comportamentos necessário para correção de erros e para ser melhor.
    Mas é necessário coragem, desprendimento e sinceridade consigo mesmo e não vejo isso com muita frequência.

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    1. Anônimo,

      Agradeço por seu comentário. :)
      Enriqueceu o meu post com uma descrição rica em detalhes do presente e do passado da humanidade.
      Sobre o passado, não há muito o que dizer. Concordo que a humanidade melhorou em muitos aspectos, mas ainda patina com atitudes às vezes até infantis.

      "Temos que pensar em que a nossa religião ou crença está contribuindo para que sejamos melhores. Se formos melhorando o resto será consequência, um efeito dominó."
      Assim como no passado, é muito frequente que a religião fique apenas na teoria, o que prejudica o desenvolvimento espiritual e pessoal.
      Se a religião fosse mais prática pelos que nela acreditam, talvez a humanidade estivesse em um nível muito melhor.

      Gostei do que escreveu no final: é necessário sinceridade, desprendimento e coragem para conseguirmos ser pessoas melhores.

      Abraços,

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  3. a realidade é triste, mas fico feliz de não ter nascido na idade média.

    abs!

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    1. Scant Tales,

      Naquela época a situação era bem pior mesmo em vários sentidos...

      Abraços,

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  4. Olá Rosana!

    O tema de fato é bem complexo. Poderia ser tema de livro hehe. Quando acabei de lê-lo, pensei em comentar sobre dois pontos principais, mas o Anônimo já comentou um deles e não vou ser repetitivo. A ideia é que precisamos relativizar todos os pontos dentro de contextos históricos. Podemos estar passando por uma fase meio negativa, mas, a longo prazo, vivemos em um mundo bem melhor, mas, claro, com muitas coisas a serem melhoradas.

    Se o primeiro ponto é a relativização do tempo histórico, o outro é a relativização do espaço. Nesse planeta temos lugares com predomínio de exemplos positivos e outros, com o predomínio de exemplos negativos, seja na moral dos indivíduos (tema muuuito complexo também), como o cuidado com o meio ambiente, respeito às regras e convivência entre pares. Talvez o maior desafio seja esse: perceber o que é bom e o que é mau, e guiar-se pelos bons exemplos. Agora vai colocar isso na cabecinha dos dirigentes mundiais rsrs

    Abraço!

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    1. André,

      Gostei do que falou sobre a relativização do espaço. Sem dúvida há locais muito mais desenvolvidos em vários sentidos e outros que parecem até que estão na idade média, como citou o Scant Tales.

      "Talvez o maior desafio seja esse: perceber o que é bom e o que é mau, e guiar-se pelos bons exemplos."
      Acho que isso tornaria muitos lugares incrivelmente melhores do que são. Infelizmente os políticos muitas vezes se preocupam mais com seus interesses pessoais do que com a sociedade como um todo - algo muito comum em países subdesenvolvidos ou em eterno desenvolvimento - como é o caso do Brasil.

      Abraços,

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  5. Oi Rosana, excelente post!

    De fato, vivemos numa era paradoxal. O que você escreveu tem muito a ver com o conteúdo do livro "Sapiens, Uma breve história da humanidade, de Yuval Harari", o qual recomendo.

    Ele diz que a humanidade fez progressos em muitas áreas, como tecnologia, mas questiona até que ponto certas coisas que hoje são vistas como "normais" não serão consideradas negativas, no futuro. Ele exemplifica com o sofrimento de animais, como galinhas, porcos, bois etc., que, se por um lado abastecem os seres humanos de comida, por outro isso pode estar sendo feito à custa das dores e sofrimentos desses animais, nas "linhas de produção" das fábricas e frigoríficos.

    Abraços!

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    1. Guilherme,

      Agradeço por seu comentário. Não conheço o livro Sapiens, agradeço pela dica.
      Gostei do que falou em relação ao sofrimento animal: tem tudo a ver com o que penso.
      Será que isso é realmente necessário? Ou será que o principal não é a manutenção da indústria? - Fica a questão.

      Abraços!

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  6. Vivemos na pressa, desenvolvendo o culto da insensibilização... e no processo... esquecemo-nos de ser felizes... nos tempos actuais... esta última parte... curiosamente... parece que é uma recorrente, em toda a história da humanidade...
    A insatisfação... que desenvolveu a inteligência do homem... será também o rastilho, do seu fim... não tenho a menor dúvida!...
    Um post extraordinário, este! Parabéns!
    Beijinhos
    Ana

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    1. Ana,

      "A insatisfação... que desenvolveu a inteligência do homem... será também o rastilho, do seu fim... não tenho a menor dúvida!..."
      Muito profunda a sua frase, gostei. Penso da mesma forma.
      Por isso precisamos voltar-mo-nos ao básico, ao essencial. Não precisamos de tantas coisas e justamente as essenciais são as mais negligenciadas. Mas são elas que realmente dão sentido à vida.

      Boa semana!

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  7. Muito boa essa abordagem. Precisamos de tão pouco e a ambição tem nos distanciado do essencial. Precisamos mudar essa história

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    1. Liliane,

      Gostei do seu comentário. Precisamos realmente mudar, enquanto há tempo...

      Abraços,

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